VI - Depois do fim

 

A época mais temida para Harry havia chegado - a hora de voltar para a Rua dos Alfeneiros.  Ele passara o resto do mês no hospital, sendo visitado por montes de amigos, e por Marian. Mas ela não dizia se eles se veriam de novo durante o verão - ou se ela ia tirá-lo do jugo dos Dursley. 

Draco não parecia a mesma pessoa, depois que o pai fora pego atacando a escola. Ele estava mais pálido e já não andava pela escola como se ele fosse o dono do lugar. Nem mesmo Crabbe e Goyle adiantavam de alguma coisa. Eles só atrapalhavam o jovem Malfoy, que parecia que estava para chorar a cada minuto. Marian não disse nada sobre o assunto, mas tinha vontade de esganar todos os Malfoys que conhecia, por causa do mal que eles tinham causado a Harry. Seu primo demorara um mês para acordar, e ninguém sabia como ele iria reagir àquele ataque - se ele realmente acordaria.

Quando chegou a hora de ir embora, Harry não achou Marian no escritório. A bandeira na parede havia sido arrancada, livros retirados das estantes. Ele chegara à conclusão que ela tinha ido embora, como todos os outros professores de Defesa Contra As Artes das Trevas antes dela.. Era uma pena. Por um mês, um longo e belo mês, ele achou que estava livre de Duda e de todo o resto. Tristemente, ele colocou Edwiges na gaiola, trancou suas malas e partiu para o Expresso de Hogwarts. Não falou com Hermione ou Ron no caminho. Ficou pensando se ele e Marian se veriam novamente. Nõ conseguira perguntar para Dumbledore se ela tinha ido embora - com a confusão do ataque e da prisão de Lúcio Malfoy, e o ataque que quase o matara, não houvera tempo para perguntas.

Mas uma semana depois de sua chegada à rua dos Alfeneiros - ele havia conseguido destrancar seu material de dentro do armário sob a escada, mas Edwiges tinha que ficar presa na gaiola - aconteceu uma coisa inesperada. Duda assistia à TV e Pétunia Dursley lia uma revista de jardinagem quando alguém bateu à porta. Quando ela abriu, uma jovem de jeans e camiseta azul carregando uma mala de viagem, longos cabelos castanhos presos em uma trança, sorriu para ela. Os olhos de Petúnia afinaram, mas a garota continuava sorrindo.

 

- A senhora é Petúnia Dursley?

- Sim, sou eu.

- Eu sou Marian Godrichild...

- Eu não conheço nenhum Godrichild. Bom dia... - Petúnia interrompeu,  começando a fechar a porta, mas Marian colocara a mala na frente.

- Você não pode ignorar que eu existo, titia. Sou filha da sua irmã Sheila e a senhora precisa me ajudar, por favor.

 

Petúnia olhou para a garota. Ela estava vestida como uma pessoa normal, não um daqueles...daqueles malucos, como sua outra irmã e o marido, ou o marido de Sheila. Ela deixou que Marian entrasse. A primeira coisa que Godrichild viu foi Duda, comendo uma montanha escabrosa de rosquinhas com geléia e creme. O garoto olhou para Marian, como se ela estivesse a ponto de roubar suas rosquinhas. Ela apenas sorriu, e se voltou para Petúnia.

 

- Tio Válter, onde está?

- No trabalho.

- Ah...sei. Tia, eu vim de muito longe para vê-la. Trago as melhores lembranças de meus pais à senhora.  

- Que bom. 

- E eu vim para buscar o meu primo. O Harry.

 

O silêncio tomou conta da casa. Petúnia olhou sem compreender. Marian tirou um pergaminho da mala e entregou à tia, com um sorriso irônico.

 

- Ministério da Magia. A partir do momento que Harry for embora daqui, e isso é para já, a proteção sob a sua casa estará terminada, e vocês vão parar de receber dinheiro. Vocês nunca fizeram nada por ele, já é hora de não fazermos nada por vocês.

- Mas vocês... - Petúnia estava desesperada - Você é...

- Tão bruxa quanto meu pai, se é isso que você quer saber. - Marian sorriu - E eu tenho autorização para usar magia para tirá-lo daqui, portanto, com licença...

 

Ela subiu as escadas, e encontrou Harry no menor quarto da casa. Não foi sem surpresa que ele viu Marian na porta, rindo.

 

- Marian!

- Expresso de Hogwarts! - ela riu, vindo abraçar o primo.

- O que você está fazendo aqui, Marian?

- Pegue suas coisas que nós estamos caindo fora, Harry. Vamos, eu levo sua coruja.

- E para onde você vai me levar?

- Ah, você vai ver. Mas qualquer lugar é melhor que aqui, né?

 

Ele teve que concordar, e começou a pegar suas coisas. Arrumada as malas, Marian desceu com Harry. Nesse meio tempo, Válter Dursley tinha chegado em casa e estava espumando de raiva. O bigode tremia no rosto que, de tão vermelho, já estava parecendo um tomate gigante.

 

- O que está acontecendo aqui? Vou processar a senhora por invasão de domicílio!

- Cala a boca, tio Válter, o senhor não sabe o que diz - Marian o cortou. Harry se lembrou de como as janelas de sua sala de aula tremiam quando ela ficava nervosa - Vocês receberam durante quatorze anos um subsídio para cuidar de Harry, e vocês deixaram-no trancado em um armário! Acabou a vida fácil, Sr. Dursley. Eu vim para retirá-lo daqui. Fim do papo!

- Você...

- Sim, sou eu mesma. A filha de Sheila. 

- Você é tão louca quanto a sua mãe, menina...

- Sim, eu sou. Agora me deixe sair!

 

Marian sorriu do medo dos tios. Com um gesto, abriu a porta e saiu carregando a gaiola de Edwiges rua abaixo. Harry a seguiu com dificuldade,  carregando a sua mala cheia de tralhas. Ao pararem na esquina, ele percebeu que a antes bela casa de número 3 da rua dos Alfeneiros agora parecia mais velha e detonada. A tinta estava descascando e o jardim estava seco, a calçada rachada e as janelas engorduradas.

 

- Eles tinham um trato com o professor Dumbledore - Marian disse - Se eles ficassem com você, a casa deles seria protegida de todo o mal, e eles ganhariam um subsídio em dinheiro de trouxa para as suas despesas... só que o Ministério não via o quanto eles te maltratavam. Ri melhor quem ri por último, né?

- Aonde a gente está indo, Marian?

- Ah, para a minha casa. Que lhe parece ser vizinho do Ron?

- Vizinho!?

- É...eu resolvi me instalar de vez aqui na Inglaterra. Já avisei meus pais. Claro, escrevi uns seis ou sete metros de pergaminho explicando como eu achei você e como eu peguei aquele dragão e etc e tal. Eles não responderam ainda. Mas, como eu dizia, eu dei entrada em uma casa, e ela é perto da casa dos Weasleys. O susto que o Ron teve quando me viu! E o outro susto que ele tomou quando ele descobriu que você ia viver comigo! 

 

O sorriso de Harry não poderia ser descrito. De repente, de condenado a passar mais um verão com os Dursley, ele se via contemplado com um presente tremendo - a chance de viver com alguém que gostava dele afinal, e entre pessoas que ele amava, como a família Weasley.  Marian parou em frente a um carro muito velho. Tio Válter, se visse aquilo, ia ter um troço. Era um calhambeque vermelho, com a lataria toda batida, com vários adesivos nos pára-choques: Liverpool Lions - Ou Vai ou Ruge, Eu estive em Cymru Gaia e Os Beatles não são só dos trouxas. Marian abriu a porta e fez com que Harry colocasse suas malas dentro do carro.

 

- Vambora, Harry. Não repara no estado do carro, mas foi tudo que deu para comprar com o que sobrou do meu dinheiro. 

- É o melhor carro que eu já vi. - ele disse.

- OK. Certo. - ela riu - Entra aí e vamos nessa.

 

Ele entrou o carro e ele saiu voando pelo céu na direção d' O Celeiro. Quando Marian viu a cara de susto do primo, ela começou a rir de novo.

 

- Uai, você realmente pensou que isso era um carro comum, Harry?


A casa de Marian era uma bagunça, como era o escritório dela em Hogwarts. A bandeira brasileira que tinha sumido da sala estava agora pregada à porta da cozinha. Flores nas janelas e estantes abarrotadas de livros.  Um caldeirão no meio da sala. Um pôster dos Beatles e uma foto com o time dos Liverpool Lions na parede perto da janela. Harry olhava tudo admirado. Ele ia viver ali, de agora em diante. Ainda não era possível acreditar.  

 

- Harry? Seu quarto é aqui no fundo. - Marian apontou. - Está meio vazio, você vai decorando como quiser. 

- Como assim, meu quarto?

- Uai, você vem morar comigo e eu deixo você dormindo no sofá? Por enquanto, é essa cama e esse armário. Não deu para arranjar mais nada, mas você pode guardar suas coisas. A sua vassoura pode ficar aqui. 

 

Harry olhou em volta. A janela dava vista para um belo jardim, onde gnomos corriam de um cachorro que mais parecia um monte de pêlos ambulante. Marian inclinou-se na janela e gritou, "Elvis, quer parar com isso?!". O cachorro olhou e continuou correndo atrás dos gnomos. Harry achou a cena engraçada e o cachorro, mais ainda.

Alguém bateu na porta. Marian foi ver quem era. Voltou com um sorriso, e Ron Weasley do seu lado.

 

- Harry! Você tem visitas!

- Ron! - Harry sorriu.

- Bem vindo à vizinhança! - Ron abraçou o colega - Quando a Marian apareceu em casa com a notícia, eu caí da cadeira. O Jorge e o Fred mandam lembranças. E a Gina...bom, a Gina vai endeusar a sua prima por trazê-lo mais perto dela.

- Muuuuito engraçado...

- Minha mãe convidou você e a Marian para jantar. 

- Que sua mãe achou dela?

- A pessoa mais legal e educada do mundo. Ah! Meus irmãos também estão em casa. O Gui e o Carlinhos estão de férias por aqui. Você vai conhecê-los!

- Legal! Ron, tem algum lugar onde se pode jogar Quadribol por aqui?

- Sem atrapalhar os trouxas da vila? Bom, tem um descampado perto da minha casa. A gente vai ter muito o que fazer, você vai ver. Podemos pescar, e...

 

E os dois ficaram conversando por horas e horas, e continuariam conversando se não fosse Marian avisar que estava ficando tarde e ela precisava se arrumar - afinal, ela tinha um jantar com os vizinhos. Ron riu e foi para casa. 

Quando o sol estava se pondo, o carro de Marian saiu em direção ao Celeiro. A família de Ron estava toda na porta, esperando as visitas. Percy, Gina, Jorge, Fred, Ron e dois sujeitos altos e ruivos que Marian identificou como sendo Gui e Carlinhos. Um deles tinha cabelo comprido e um brinco na orelha; o outro tinha uma ferida no braço. A senhora Weasley fez as apresentações, e Marian descobriu que Gui era o rapaz de cabelos compridos, e Carlinhos - que estudava dragões na Romênia - era o rapaz com feridas nos braços.

 

- A Marian entende de dragões, Carlinhos - Ron disse - Ela derrubou um sozinha!

- Não foi bem assim, Ron. - Marian ficou vermelha.

- É mesmo? - Carlinhos parecia interessado.

- É de família. Meu avô caçava monstros mágicos...

 

Os dois ficaram conversando enquanto o jantar não ficava pronto. Carlinhos parecia bastante interessado nas histórias que Marian contava, e vice-versa. O jantar foi servido - frango, torta de carne, batatas e salada. De sobremesa, torta de maçã. Vendo todos os Weasleys juntos, conversando e fazendo barulho (eventualmente uma das varinhas falsas de Jorge e Fred explodiam na mesa), Marian pensou em sentir saudades de seus pais. Mas já tinha decidido - se seus pais quisessem, eles viriam até ela. Ela escolhera o seu lado na batalha, e ela estaria do lado de Harry, aonde Harry estivesse. Iria tomar conta dele. E ela sabia aonde isso iria levá-la. Um dragão era o mais simples que Voldemort poderia jogar contra ela e Harry. Mas ela teria que pagar para ver. Afinal, ela era uma Godrichild, não era? 

 

Harry Potter e Marian Godrichild voltarão em O jogo da verdade

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