Um dia de cada vez

Ah, que me seja dada a dádiva de viver um dia de cada vez!
Sem os sobressaltos do cotidiano que tanto nos assustam!
Sem o medo das sombras e dos inimigos, um dia como os outros...
Ah, como eu queria que esse dia raiasse sobre mim!

Já tinham se passado muitos anos desde que ele se formara, e ainda assim aquela imagem, aquele gesto não tinha saído de sua cabeça. Era como se tudo tivesse ocorrido há alguns instantes atrás, como se ele ainda tivesse dezessete anos e a vida toda pela frente.

Ele estava, como de costume, sozinho. Ninguém para lhe ouvir ou prestar atenção no que ele dizia. Ele era apenas um menino rico, um sujeitinho excêntrico. Não tinha mais o mesmo poder e a mesma empáfia de antes. Sete anos em Hogwarts drenam o seu sangue, transformam a sua alma.

E sempre havia Harry. Sempre ele e aqueles óculos, aquela cicatriz. Aquela vida que não deveria estar ali, não deveria existir.

Naquela noite, ele deveria estar em sua formatura. Fugira. Não podia encarar mais ninguém. Voldemort tinha se erguido das sombras...para morrer nas mãos de uma criança de dezessete anos. Para simplemente dissolver nas trevas para todo o sempre.

E lá estava ele. Perdido nas escadarias. Desesperado com seu próprio destino. Já não havia mais lugar para pessoas como ele no mundo dos bruxos. Já não se aceitavam os ricos mercadores da magia negra como antigamente. Ele estava reduzido à simplicidade idiota dos homens comuns.

Foi quando ele ouviu aquela voz. Cansada demais até para respirar, o Harry que retornara dos mortos se erguia para subir as escadas e seguir para sua formatura.

"Que me seja dada a dádiva de viver um dia de cada vez", ele dissera, rindo de si mesmo - tão cansado e tão jovem que era, com poder que até aquele dia ele não conseguia administrar. O homem que salvara a raça bruxa era filho de trouxa, criado por trouxas - era um homem. Era somente um homem.

Draco inclinou-se na escada, ouvindo as vozes partindo ao longe. Viver um dia de cada vez. Sem medo e sem hesitação, sem pensar que poderia haver um fantasma ou um monstro nas sombras das estátuas, ou em qualquer outro lugar.

Desde então - e embora ele nunca mais tivesse visto Harry, ainda que Harry nunca tenha de fato desaparecido - Draco estava pensando nele. Na dádiva de viver um dia de cada vez. De como ele tinha sido reduzido a simplesmente um ser humano como todos os outros.

E como aquilo doía, desesperadamente.

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